Maravilhosas Corpo de Baile: o lugar que aceita todas as mulheres como elas são

Coletivo de pole dance criado por Graziela Meyer resgata a autoestima das mulheres

Tatiana Bandeira

O Maravilhosas Corpo de Baile é um coletivo que, por meio da dança e da música, busca resgatar a autoestima das mulheres | <i>Crédito: Nathaly Himmel/Divulgação
O Maravilhosas Corpo de Baile é um coletivo que, por meio da dança e da música, busca resgatar a autoestima das mulheres | Crédito: Nathaly Himmel/Divulgação

Há pouco mais de um ano, a atriz catarinense (e também dançarina e DJ, a moça é multitarefa mesmo) Graziela Meyer, 38, provavelmente não fazia ideia de que transformaria a vida de tantas mulheres. Em maio de 2016, entre um espetáculo e outro, com a sementinha da dança na cabeça, um pouco de estresse no corpo e o desejo de incrementar a renda, ela criou o Maravilhosas Corpo de Baile. Trata-se de um coletivo que, por meio da dança e da música, busca resgatar a autoestima das mulheres. Ela começou a dar aulas de pole dance em casa até que partiu para um workshop, em um estúdio de uma amiga, em que a ideia principal era “trabalhar corpos que não precisam estar dentro de um padrão, mas que precisam produzir coisas interessantes ‘por serem’ daquele jeito, não ‘apesar de serem’ daquele jeito". Era para ser uma aula, viraram quatro, e, assim, nascia o Maravilhosas Corpo de Baile. 

 

Atualmente são quase 60 mulheres participando do projeto, com idades que vão dos 19 aos 40 e poucos, em dois espaços na capital paulista: um no bairro Pompeia, em uma sala de 30m², e outro no estúdio onde tudo começou, no bairro Santa Cecília. No Facebook, uma das frases que explica o grupo é “Putas, gordas, pretas, vacas, biscates, vadias, loucas, sapatas, feministas, mulheres, irmãs. Existimos. Resistimos” – deixando claro que todas as mulheres são bem-vindas ali. “O objetivo de todas aulas do Maravilhosas Corpo de Baile é ajudar as mulheres a encontrar uma relação mais saudável e de afeto consigo mesmas. Queremos desenvolver a autoestima feminina através dessas atividades e do encontro. Isso é muito importante. Por isso que a gente preza muito pelo clima que temos aqui dentro”, conta Grazi. As aulas são diárias, de segunda a sexta-feira, e vão de pole dance, a “especialidade” da casa, à flexibilidade, utilizando estilos como funk, axé, ritmos africanos, “afrovibe”, até uma aula curiosamente intitulada de “Aula de arrasar na boate: destinada a meninos e meninas que queiram reinar nas festinhas”.  

 

Corpo inadequado para quem?

Para quem chega a primeira vez no Maravilhosas, o clima é de animação e amizade, algo que Grazi faz questão de ressaltar: a importância do afeto entre as meninas. “Elas percebem que é um espaço onde elas são adequadas. É dito a vida inteira para nós que nosso corpo é inadequado. A gente ou é gorda demais, ou é magra demais, ou é muito gostosa. E e é por isso que te cantam na rua... Ou tem muito peito ou tem pouco. Aí você emagrece e só tem osso e aí vai fazer musculação pra ficar mais gostosa e ‘vai parecer um homem’. Nunca, o teu corpo nunca é adequado. Isso existe e é de propósito, porque o patriarcado quer manter a gente dentro de uma caixinha, controlada. A gente vive meio à beira de um surto, nunca estamos à vontade com o corpo – que é o que mais marca quem a gente é, mais marca nossa história, nos carrega. Quando as alunas entram aqui, elas percebem que isso é mentira. Entendem que todo corpo é adequado e que todas as mulheres vão conseguir fazer coisas incríveis, que aqui dentro elas vão se sentir bonitas, interessantes, donas de si. E quando percebem que estão praticando um esporte não pra construir um corpo ‘x’, não para dançar sensualmente para alguém,  mas para elas se sentirem bem, isso é muito libertador. Elas se sentem confortáveis em ser quem são. E uma parte importante é a relação com as outras mulheres. Quando comecei a fazer pole me tornei muito feminista, comecei perceber que era muito mentira isso de que a gente não pode confiar uma na outra. Que somos naturalmente competitivas e inimigas. Isso é a maior mentira que nos contam. Eu só digo isso: a partir do momento em que estamos aqui dentro, esse é um espaço de amor, de afeto, de respeito, aqui a gente cuida uma da outra. E tem carinho pela outra. Em um ano nunca nenhuma olhou torto, nunca teve vontade de competir com ninguém”.  

 

Isadora Attab, 28 anos, jornalista e editora de livros faz coro: “A diferença que o Maravilhosas Corpo de Baile faz na minha vida? Mudou a visão sobre mim de uma maneira bem profunda. De eu me reconhecer diferente, me enxergar diferente, de olhar aquela pessoa ali fazendo coisas, dançando. Ver uma mulher que eu não sabia que era (e que estava dentro de mim) e me sentir bem sendo ela. Me fez gostar muito dela.  E estar muito a fim de dar ainda mais poder e mais asas para essa pessoa.  E além disso, outras duas coisas. Comecei finalmente gostar de uma atividade física, de não ver a hora da aula chegar, me preparar, me ‘montar’ para ir para a aula. A outra coisa é encontrar mulheres incríveis. A gente formou mesmo um grupo de meninas que se apoia, que está sempre junto, fazendo mil coisas. Nosso grupo é muito unido e muito bacana”. Ela começou no Maravilhosas há cerca de 1 ano, com aulas de dança, e depois passou também fazer pole dance.

 


Sobre o pole dance

É claro para quem vê de fora que a liberdade toma conta de quem faz as aulas. Especialmente as de pole dance – em shortinhos curtos, às vezes até maquiadas, as garotas rebolam, sensualizam na barra. Os shorts são curtos, explica Grazi, primeiro por uma razão: a pele precisa estar em contato com a barra para não escorregar, segundo porque é divertido mesmo, é a essência. “Quando você entende que as pessoas estão lá pra praticar uma atividade física e se divertir, elas não estão lá pra se frustrar, este é o barato. Aqui o objetivo é esse, em todas aulas: ajudar as mulheres a encontrar uma relação mais saudável, de afeto, com elas próprias. Porque o corpo é mais do que um formato. E todos os corpos fazem formatos bonitos”.

 


De acordo com Grazi, as moças, não procuram o Maravilhosas em busca de emagrecimento. Pelo contrário. Querem é descobrir que aquele corpo que têm é capaz de realizar tudo que elas precisam. O que acontece é que, naturalmente, com a atividade física, o corpo vai se transformando. “Tem menina que é muito magrinha, que ganha peso, que ganha músculo. Há quem emagreça. O corpo se transforma pra se adequar à atividade”.

 

Sobre as aulas e custos

Se você ficou interessada em fazer aulas, saiba que não há pré-requisito. Basta ter um corpo, segundo Grazi, e descobrir o que esse corpo pode fazer. No caso de pole dance, só há algum impedimento em casos de problemas de articulação grave no ombro. A aulas custam R$ 100 por mês, 1 vez na semana. Apesar de totalmente feminista, o Maravilhosas não é misândrico e aceita homens. :)

Para quem está meio sem grana. Uma boa notícia: em breve Grazi pretende lançar um projeto de “escambo”. Funcionará assim: se você não tiver grana, mas tem vontade de fazer as aulas, e tem outro serviço ou produto para oferecer e/ou trocar, vocês podem, se houver interesse de ambos, fechar negócio. https://www.facebook.com/maravilhosascdb/

 

Graziela Meyer, a criadora de tudo


 

27/06/2017 - 07:32

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