"Deus nunca foi um ser religioso", afirma o autor de A Cabana

Entrevistamos William P. Young, autor de A Cabana, best-seller que virou filme

Gregory Prudenciano

O sucesso de A Cabana fez o livro virar filme | <i>Crédito: Divulgação
O sucesso de A Cabana fez o livro virar filme | Crédito: Divulgação
A Cabana é um sucesso absoluto. Lançada há 10 anos, a obra vendeu 20 milhões de exemplares no mundo, sendo mais de 4 milhões só no Brasil. O sucesso foi tanto que o livro permaneceu por 163 semanas na lista dos mais vendidos. Agora, a obra faz sucesso também nas telonas com a sua versão cinematográfica.
O livro conta a história de Mack, um homem casado e pai de três filhos que vive a dor da perda de sua filha caçula, Missy. Após ser morta por um assassino em série, Missy é encontrada no interior de uma cabana abandonada. Anos depois, ainda sem se recuperar da morte da filha e levando adiante uma dor que está a ponto de destruir seu casamento e a relação com os outros filhos, Mack recebe um convite misterioso para retornar à cena do crime. É nessa cabana que Mack tem uma experiência com Deus, representado como Trindade por três diferentes personagens. 
O livro foi escrito pelo americano William P. Young como um presente de Natal para seus filhos. Inicialmente, ele imprimiu 15 cópias de sua obra e presenteou, além de sua família, alguns amigos próximos. No entanto, a obra saiu de seu controle e rapidamente o catapultou para a posição de um dos mais bem-sucedidos autores da atualidade. Para repercutir a obra e discutir os principais pontos que envolvem o best-seller tornado filme, a Viva! Mais entrevistou William. Confira as respostas na íntegra:

Como você definiria a sua religião? Como cristão?
Deixe-me começar citando [o padre episcopal] Robert Farrar Capon: “o mundo não é, de modo algum, contrário à religião”. De fato, ele é devotado a ela de maneira apaixonada. O mundo vai comprar qualquer fórmula para a salvação contanto que essa fórmula deixe em mãos humanas a responsabilidade de produzir a salvação. Mas o mesmo mundo que está mergulhado na religião se assusta com qualquer menção de uma graça que torne gratuito o caminho de volta ao lar. 
Como Jesus diz no filme A Cabana, “religião... dá muito trabalho”. Deus não é um ser religioso, mas um ser relacional. 
Agora me deixe dizer minha opinião: Deus nunca foi um ser religioso. Cada elemento da religião, o que é bom e o que é destrutivo, está originado no disfuncional coração humano. Sim, o meu plano de fundo religioso é o cristianismo. Sim, eu me identifico frequentemente com o cristianismo, dependendo de como isso for definido. Mas Jesus não criou o cristianismo, ele veio revelar a nós o que é viver verdadeiramente livre, como um ser humano de verdade. Jesus não veio começar uma religião. 

De onde surgiu a história de A Cabana? Você diria que as metáforas do livro foram dadas a você por Deus?
É óbvio que eu não escrevi o livro sozinho, mas Deus também não o escreveu por conta própria. Eu penso que tudo é bom, verdadeiro, correto, justo e belo é dado a nós por Deus. Essa é a verdade das Escrituras (A Cabana não faz parte delas). Assim como a criação de um bebê não se dá sozinha. Deus é um deus que ama companhia, Ele nunca esteve sozinho e está nos convidando para sermos co-criadores com ele. A história veio da minha vida, da minha jornada pessoal em busca de cura, da minha luta contra a perda da fé e, principalmente, da confiança. Eu escrevi o livro como um cartão de Natal para os meus filhos e fiz 15 cópias na gráfica. Isso cresceu e tocou milhões de pessoas, como uma evidência do grande senso de humor de Deus e também de sua bondade e graça. 

Ao mesmo em que A Cabana se tornou um sucesso mundial, também sofreu muitas críticas de alguns religiosos. Por quê?
Os religiosos são o “meu” povo. Eu me identifico com eles profundamente. Eu fui alguém muito religioso e julguei os outros porque tinha medo ou algum senso de superioridade. Quando pessoas religiosas estão irritadas, elas vão tentar expressar isso da única maneira que elas sabem. Eu entendo o medo delas. Religião demanda agir; o seu destino eterno está relacionado com a forma com que você atua no mundo. Isso é terrível! A religião também causa separação, estabelece um pensamento do tipo “nós contra eles” que faz com que as pessoas religiosas se sintam superiores as que não são como elas. Muitas das críticas que são feitas sobre o meu trabalho não vem de pessoas que estão abertas a ele, pelo contrário, vêm de pessoas que sequer leram o livro ou assistiram o filme. Vou colocar as coisas desse jeito: se nós virmos a religião como uma espécie de território por meio do qual as pessoas alcançam senso de identidade, dignidade, segurança, significado ou propósito, então passarão a ver esse território como algo que deve ser defendido e protegido. 

É possível vencer uma grande dor como a vivenciada por Mack sem acreditar em Deus? 
Com certeza! A graça e a bondade de Deus não dependem da ação daqueles a quem Deus ama, sejam eles crentes ou ateus. Eu ainda diria que tanto a crença quando a descrença podem se tornar dificuldades a mais para superar uma grande perda. Além disso, eu definiria a crença como algo ligado à confiança, não a uma concordância intelectual, e todos nós, sendo religiosos ou não, temos problemas em confiar. Eu também diria que a jornada de superação ou de transcendência da dor e da perda, ou de uma grande tristeza, não ocorre se nós não participarmos dela. Deus não vai nos curar sem que nós escolhamos também nos dedicar a isso. Deus não é um narcisista, Ele coopera com todo ser humano sem se importar se a pessoa acredita nele ou não. Deus vai participar dessa jornada também. 

O que você diria àquelas pessoas que, em suas jornadas pessoais, abandonaram a fé?
Geralmente as pessoas que “abandonaram a fé” são na verdade aqueles que desistiram das construções e das ideias religiosas de um Deus que se tornou inadequado para lidar com os desafios da vida. Em outras palavras, há uma noção de que é preciso abandonar as ideias erradas sobre Deus para ir em direção à verdade de quem Deus é. O que é visto frequentemente como “perda de fé” é na verdade uma perda de religião, e eu penso que esse é um doloroso, porém necessário, movimento em direção a uma autêntica confiança em Deus como alguém que é bom em todo o tempo. A religião nunca será capaz de oferecer o acolhimento que o implacável carinho advindo da autêntica relação com Deus pode nos proporcionar.

Você está satisfeito com a versão cinematográfica de A Cabana? É comum que autores e fãs de uma obra originalmente produzida como um livro critiquem essas versões...
Eu estou muito feliz com o filme. Em minha opinião, é uma das melhores adaptações de livro para o cinema que eu já vi. Parte disso aconteceu porque as pessoas envolvidas na filmagem e na produção do filme já tinham sido pessoalmente impactadas pelo livro. A produtora, o diretor, os atores, todos queriam que o filme refletisse o poder da história e mantivesse a bênção de seu impacto. 

A Cabana é um livro que dialoga com outras religiões além do cristianismo? 
A Cabana é uma história humana, e como todo ser humano “é” uma história, todos sentem afinidade por uma trama bem contada. Isso tem dado às pessoas de todos os lugares do mundo uma linguagem para ter uma conversa a respeito de Deus. Não uma conversa religiosa, mas uma conversa relacional. Sim, existe uma crença refletida no livro e no filme que está baseada primariamente no cristianismo, mas a história transcende a religião e tem temas universais, tudo isso sem negar a centralidade do Deus revelado em Jesus. Todas as religiões refletem a verdade porque todas foram criadas por seres humanos feitos à imagem e semelhança de Deus, mas todas as religiões também escondem a verdade porque elas foram criadas por seres humanos perdidos na cegueira de sua necessidade por criar deuses segundo a nossa própria imagem e semelhança. A Cabana reconhece isso como um conflito e nos convida para a uma conversa maior. 

A que você atribui o sucesso de A Cabana
Ao senso de humor de Deus. Ninguém poderia prever o sucesso do livro. Tantos elementos estiveram presentes, incluindo o momento que vivemos como humanidade, as possibilidades tecnológicas que permitiram que a obra se espalhasse e a fome das pessoas que perderam suas amarras. A política já não responde ao chamado do coração humano, assim como a religião. O livro, e agora o filme, são parte de uma conversa que vem emergindo a respeito do que significa ser humano e que isso inclui também a fé. A história tem dado às pessoas uma língua para falar sobre Deus de uma maneira relacional, não religiosa, ao mesmo tempo em que reconhece as lutas humanas que envolvem perdas, que lidam com nossas questões existenciais sem oferecer soluções simplistas ou sem empurrar um discurso que tente converter ou convencer as pessoas. A boa criatividade aproxima e convida o espectador, o ouvinte, o leitor para se envolver em sua própria história. Esse é, em parte, o poder de A Cabana.

17/04/2017 - 19:58

Conecte-se

Revista Viva Mais